Economia Comportamental pode estimular poupança de longo prazo

2019-01-18T18:25:54+00:00 sexta-feira ,11/01/2019|

Depois de render quatro prêmios Nobel (a Hebert Simon em 1978, Daniel Kahneman em 2002, Robert Shiller em 2013 e Richard Taylor em 2017), a Economia Comportamental passou de um programa de pesquisa marginal para um dos mais influentes conceitos de análise de mercado e de formulação de estratégias e políticas para grandes empresas e governos. Autora dos primeiros livros sobre o tema no Brasil, Vera Rita de Mello Ferreira recomenda-o como parte de políticas públicas para promoção da cultura de poupança de longo prazo.

A Economia Comportamental analisa a influência de fatores cognitivos, emocionais, culturais, sociais e psicológicos nas decisões econômicas das pessoas. À medida que incorpora à Economia descobertas do campo da Psicologia, da Neurociência e de outras disciplinas, a Economia Comportamental contrapõe-se à linha econômica tradicional ao sugerir que a racionalidade dos agentes econômicos (indivíduos, empresas ou governo) é limitada.

Ao OABPrev Notícias, Vera Rita, que é doutora em Psicologia Social com tese em Psicologia Econômica, representante da IAREP (Internacional Association for Research in Economic Pychologist) e professora na B3 (bolsa de valores oficial do Brasil), explicou como os saberes da Economia Comportamental podem ser incorporados pelas entidades fechadas para colocar a previdência complementar na ordem do dia da população.

Entre as ações mais simples e efetivas que podem ser implementadas, Vera Rita destaca a adesão automática de potenciais participantes aos fundos de pensão. Segundo ela, a adesão automática inverte a lógica da inércia do brasileiro. “Hoje, o silêncio significa que a pessoa não quer o plano. Com a adesão automática, a inércia passa a significar um ‘sim’ porque, no geral, quando a pessoa vê o ingresso dela já pré-marcado no formulário, ela deixa lá, e com isso beneficia o país no presente e a ela própria no futuro”, explica.

A adesão automática baseia-se nos estudos do americano Richard Thaler, que sustenta que os resultados das escolhas são influenciados pela maneira como elas se apresentam ao indivíduo, de modo que basta um “empurrãozinho” (nudge , em inglês) para que tomemos certas decisões.

Vários governos criaram departamentos e programas para promover “empurrões” às políticas públicas.  A Espanha opera um sistema em que todos os cidadãos são automaticamente registrados para doação de órgãos, a menos que decidam indicar o contrário. O sistema é uma das razões pelas quais o país é líder mundial em doação de órgãos. No tocante à previdência complementar, nos Estados Unidos, após a regulamentação da automatic enrolment (adesão automática), a taxa de adesão a planos dos fundos de pensão saltou de 37% para 86%. No Brasil, o único fundo de pensão que pratica essa modalidade é o Funpresp (fundo de pensão dos servidores públicos federais).

Uma crítica comum à política do “empurrãozinho” é que constituiria manipulação do livre arbítrio individual. Para Vera Rita, contudo, o modelo não retira da pessoa a liberdade de não participar de fundo de pensão, por exemplo, bastando sua manifestação expressa em contrário.

A imobilidade, especialmente quando o assunto é finança, sempre foi característica marcante da sociedade brasileira. Pesquisa encomendada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em 2018 mostrou que mais da metade da população (57%) das classes A, B e C não investe em nenhum tipo de aplicação, nem mesmo na caderneta de poupança. Outra pesquisa, esta do Banco Mundial, revelou que apenas 6% dos brasileiros com idade entre 15 e 24 anos guardaram algum dinheiro em 2017 pensando na velhice.

“De um lado, temos a mente humana, ainda habituada a só pensar no curto prazo e com dificuldade de lidar com o longo prazo que a evolução nos proporcionou e, de outro, temos o que eu chamo de crença infundada na capacidade futura. É um otimismo exagerado que nos faz acreditar que lá na frente, quando os desafios se apresentarem, teremos capacidade para resolvê-los, esquecendo-nos de que todos os recursos, incluindo aqueles que vão além do dinheiro, como saúde, são finitos”, argumenta Vera Rita.

De outra parte, ela diz que a crise econômica, aliada ao cenário de incertezas do sistema previdenciário público, fez com que mais gente tomasse ciência da limitação e da finitude de seus recursos e dos benefícios públicos que o Estado oferece. “O que a gente não sabe é se esse aprendizado é consistente, se os brasileiros, no momento em que a economia responder e o crédito voltar à praça, continuarão a tomar os devidos cuidados”, alerta.

Vera Rita acredita que é também papel dos fundos de pensão promover campanhas de educação financeira e previdenciária que permitam consolidar a consciência econômica da sociedade brasileira.

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